Viés de disponibilidade

23 set 20190 Comentários

Na sua opinião, que probabilidade é maior, a de ser atropelado por um ciclista enquanto você está caminhando ou a de ser atropelado por um carro enquanto você está de bicicleta?

Se você for igual à maioria das pessoas talvez tenha respondido que é mais provável ser atropelado enquanto está andando de bicicleta. Quase todo dia vemos notícias de ciclistas atropelados por carros, então não tem como ser de outro jeito, certo? Não.

Curiosamente, a realidade é que os ciclistas ‘atropelam’ mais do que são atropelados.

O responsável deste erro de julgamento chama-se viés de disponibilidade heurística. Esse nome tão chique se refere ao fato de que tendemos a julgar de forma errada a frequência e a magnitude dos eventos que aconteceram mais recentemente.

Quer outro exemplo? Freeman Dyson explicou num artigo em 2011 uma realidade chocante sobre os benefícios dos ataque de tubarões:

Um exemplo impressionante de viés de disponibilidade é o fato de que os tubarões salvam a vida dos nadadores. Uma análise cuidadosa das mortes no oceano perto de San Diego mostra que, em média, a morte de cada nadador morto por um tubarão salva a vida de dez outros. Toda vez que um nadador é morto, o número de mortes por afogamento diminui por alguns anos e depois retorna ao nível normal. O efeito ocorre porque relatos de morte por ataque de tubarão são lembrados com mais clareza do que relatos de afogamentos.

Em seu livro Pensar rápido e devagar, Daniel Kahneman explica:

As pessoas tendem a avaliar a importância relativa dos problemas pela facilidade com que são recuperados da memória – e isso é amplamente determinado pela extensão da cobertura da mídia.

Isto acontece porque nossa memória é limitada e lembramos mais claramente de aquilo que temos visto mais recentemente ou aquilo que nos é mostrado com mais frequência (mais um motivo para não assistir os jornais na tv).

O problema aqui é que tendemos a achar que nossas lembranças do passado são fiéis à realidade, quando na verdade o que temos na cabeça provavelmente foi influenciado por eventos recentes.

Além disso, temos uma tendência enorme a dar mais peso à nossa própria experiência do que às estatísticas ou às experiências dos outos o que, por outro lado, nos leva a um excesso de confiança.

Muitas vezes algo que aconteceu com você é, na prática, algo muito pouco provável. Porém você vai tender a achar que aquilo é regra e que pode acontecer de novo. Isso vai lhe fazer se preocupar com as coisas erradas.

Uma outra forma de ser vítima do viés de disponibilidade é ao ouvir uma narrativa atraente. Narrativas são perigosas justamente porque trazem à nossa mente histórias convincentes que ativam o viés de disponibilidade e nos fazem ignorar os fatos que realmente importam.

Nos investimentos

Devido ao viés de disponibilidade, ao tomar decisões de investimento tendemos a dar mais importância a um único evento chamativo ou muito noticiado do que a uma série de pequenos sinais, que são os que de fato estão fazendo as coisas acontecerem.

Um exemplo é o que acontece com a cotação das ações da Apple toda vez que a empresa anuncia o lançamento de um novo iPhone. Os jornalistas começam a divulgar vendas esperadas mais fracas, ou a falta de alguma característica que os concorrentes já possuem e isso faz com que o preço das ações caia durante um breve periodo de tempo.

Porém quase ninguém parece reparar no fato de que os iPhones continuam se vendendo a preços cada vez maiores, que há outros produtos com vendas em crescimento e que a Apple está mudando seu modelo de negócio aos poucos, dando cada vez mais peso aos serviços, que têm margens ainda maiores do que o iPhone (aviso: isso não é uma recomendação de compra).

Mas talvez uma das coisas mais perigosas para o investidor sejam as narrativas. Você vai escutar e ler, muita vezes, histórias maravilhosas sobre por que aquela empresa vai ser um ótimo investimento nos próximos anos. Há inclusive investidores que procuram ativamente essas narrativas, com o objetivo de ter um motivo convincente para comprar.

Isso é um erro, pois essa atitude esconde, na verdade, uma falta de análise independente. Então faça sempre sua própria avaliação e restrinja-se aos fatos.

Antes de tomar uma decisão de investimento, questione sempre as narrativas que tenham aparecido na sua frente, questione suas opiniões não comprovadas por fatos e busque, antes de qualquer coisa, motivos para não colocar seu dinheiro naquele investimento.

Se não achar motivos para o descarte, talvez você tenha achado uma boa oportunidade.

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