Resumo da carta anual do Warren Buffett de 2018

4 mar 20190 Comentários

No passado 23 de fevereiro, Berkshire Hathaway publicou a carta anual de Warren Buffett aos acionistas. O que segue são meus destaques da mesma. Pode ler aqui o original em inglês.

Como na carta se mencionam termos técnicos, achei importante tentar explicar da forma mais clara possível os conceitos por trás de cada termo, e é por isso que este resumo ficou um pouco cumprido. Espero que a clareza das explicações tenha compensado o cumprimento do texto. Vamos então já com o conteúdo.

Sobre a forma de analisar o lucro da empresa

Quando olhamos para a DRE, o demonstrativo de resultados do exercício, chamado na contabilidade americana de P&L (Profit and Loss Statement), devemos ter sempre em conta que as regras contábeis podem estar distorcendo o resultado real da empresa. A partir do ano fiscal de 2018 as regras obrigam a adicionar no final do P&L as perdas ou ganhos não realizados, isto é, antes de elas terem acontecido de fato. Isto pode dar lugar a variações enormes no lucro líquido, que não mostram a realidade da empresa. O conselho do Warren Buffett é, então, focar nos lucros operacionais.

Porém, mais à frente na carta explica de que forma a grande maioria das empresas, de forma enganosa, foca sua comunicação de resultados no EBITDA, o que é uma forma de disfarçar os resultados reais. O EBITDA é o beneficio operacional antes de pagar impostos, juros, depreciações e amortizações. Ele também não inclui a parte dos salários dos diretores paga em ações ou despesas com reestruturações. Porém todos esses itens são custos reais do negócio e deveriam ser tidos em conta: quando um diretor recebe como pagamento ações da empresa, está sendo aumentada a base de ações em circulação, e por tanto está sendo reduzido o valor das ações do resto de acionistas. As reestruturações, ainda que possam parecer despesas pontuais, acontecem com suficiente frequência como para tê-las em conta. E no caso das depreciações e amortizações, são despesas também reais, pois representam o investimento que a empresa terá que realizar para substituir no futuro o equipamento obsoleto.

Em relação à depreciação, Warren Buffett explica, novamente, que deve ser substituída em nossos cálculos de valor pelas despesas com capital de manutenção, chamadas em inglês de Maintenance Capex. Isto é porque as despesas com capital de manutenção são o verdadeiro desembolso de dinheiro necessário para manter a estrutura da empresa funcionando, entanto que a depreciação é uma contabilização do gasto definida pelas regras contábeis.

Em relação às amortizações, porém, explica que há um tipo de amortização, aquela relacionada às despesas com aquisições (compra de outras empresas), que não são de fato despesas económicas, embora devam ser contabilizadas. Essas amortizações são reduções do valor contábil do fundo de comercio (Goodwill em inglês). Esse fundo de comercio cresce toda vez que uma empresa é adquirida por um preço superior a seu valor em livros. Por exemplo, se a contabilidade da empresa X que eu estou comprando diz que a empresa vale 10, mas eu estou pagando 12, ao incorporar a empresa X à minha contabilidade deverei adicionar um valor de 2 (12-10) ao meu fundo de comercio. Este fundo de comercio, segundo as regras, deve ser reduzido aos poucos por meio de amortizações contábeis, que são contabilizadas como despesas.

Sobre a forma de criar riqueza

Olhando para os resultados anuais de Berkshire e o rendimento medio anual percebemos que bastam 2 coisas para criar riqueza a longo prazo: um retorno medio anual razoável (20%) e uma vida longa. Em 53 anos de administração de Berkshire por parte de Warren Buffett e Charlie Munger esse tem sido o retorno medio anual, 20,5% (pense nisso quando lhe prometam métodos de investimento com retornos anuais de 163%). Em 53 anos, ao 20,5% anual, 100 reais investidos inicialmente viram 1.969.259,13 reais. Sim, 100 reais viram 2 milhões de reais.

Foque no bosque, não nas árvores: o resultado do conjunto é o que importa, e não as componentes individuais. Buffett faz esta analogia para mostrar a importância de olhar para Berkshire como um todo e não para cada componente das inúmeras empresas que formam parte do conglomerado. Porém a comparação também é útil para olharmos, como eu disse antes, para nossos investimentos como uma maratona e não como um sprint. E se você acha que você não vai poder desfrutar dos seus investimentos daqui a 53 anos, pense então em seus filhos e seus netos: graças a você e sua dedicação eles poderão ter uma vida muito boa.

Outra forma de aproveitar o poder dos juros compostos dentro da empresa é a retenção dos lucros dentro do patrimônio liquido. Toda vez que esses lucros são distribuídos como dividendos, tanto a empresa quanto o acionista que recebe esses dividendos pagam impostos. Se esses lucros forem deixados dentro do patrimônio liquido e utilizados para investir em maior crescimento, os juros compostos operam sua mágica. De fato, uma redução de simplesmente 1,8% sobre aqueles 20,5% anteriores fariam os 2 milhões ficar em simples 882.852,4 reais. Menos da metade!! Moral da historia: toda despesa por pequena que for, reduz drasticamente nossa capacidade de ganho no longo prazo.

Então o que fazer com os lucros retidos além de reinvesti-los no negócio? Recomprar ações da própria empresa. Buffett faz isto por preços acima do valor em livros da empresa mas abaixo do valor intrínseco da mesma. Desta forma consegue aumentar o valor real por ação entanto que faz cair o valor em livros de cada ação. Aumenta a participação nos lucros dos acionistas que ficam, baixando ao mesmo tempo o preço em livros de cada ação.

Sobre como administrar a empresa

Algo que Buffett preza enormemente é a disponibilidade de dinheiro em caixa: nunca arrisque a ficar curto de caixa. Desta forma poderá enfrentar não somente possíveis turbulências que venham pela frente como aproveitar oportunidades de compra que surjam no mercado. Sobre as turbulências também alerta: não devemos estimar os perigos futuros com base nos perigos passados, pois o pior sempre está por vir e será, por definição, algo que você não espera, pois nunca antes aconteceu. Se prepare para isso.

E como o futuro não pode ser previsto não adianta fazer predições sobre se uma ação vai subir ou cair. Nosso foco deveria estar sempre em calcular se um negócio vale mais do que seu preço no mercado. E nunca venda um negócio de alta qualidade.

Sobre a origem do financiamento das empresas

Há duas formas principais de obter financiamento numa empresa:

1. Uso de dívida: a dívida deve ser usada de forma moderada. A moderação no uso da dívida pode fazer com que desaproveitemos oportunidades durante a maior parte do tempo. Porém ocasionalmente pode salvar nossa vida. A dívida é igual a roleta russa: embora a maior parte do tempo a dívida sirva para alavancar os ganhos, em ocasiões pontuais ocasiona a falência e a morte da empresa. Por isso, em palavras do Buffett, não arrisque o que você tem e precisa por aquilo que não tem e não precisa.

2. Uso de Equity (patrimônio liquido): Como foi explicado anteriormente, a forma mais eficiente de usar o dinheiro dos acionista é reter lucros e aproveitar os juros compostos.

A estas duas formas de financiamento, Berkshire adiciona mais duas:

1. Float: o que Warren Buffett chama de float é dinheiro proveniente das primas de suas empresas de seguros. Esse dinheiro é para ser utilizado no pagamento de compensações em casos e ativação do seguro por parte do usuário. Porém, no meio tempo, ele pode ser investido para fazer a empresa crescer. É obvio que isso deve ser feito com prudência, pois como foi mencionado anteriormente, o tamanho do risco futuro é imprevisível, mas no caso de Berkshire esse dinheiro flutuante está sempre em aumento.

2. Impostos não pagados em ganhos não realizados: quando você investe a longo prazo, como fazem Warren Buffett e Charlie Munger, você não vende no curto prazo, e por tanto não realiza ganhos. Com isso retrasa o pagamento dos impostos, e esse dinheiro continua rendendo a juros compostos ano após ano.

Sobre em que empresas investir

Buffett nos da nessa carta o melhor e mais simples checklist de investimentos que podemos achar:

  • Um negócio administrado por gestores capazes
  • Com características econômicas favoráveis e duradouras
  • E que esteja a bom preço.

Além disto, duas características importantes da empresa deveriam ser um retorno sobre o patrimônio liquido (ROE) de no mínimo 20% e uma dívida baixa. Como explicado anteriormente, um retorno aceitável compondo a longo prazo pode nos fazer muito ricos. E uma dívida baixa evitará surpresas desagradáveis como a quebra da empresa.

Resumo final

Como resumo final acho que devemos ficar com as seguintes lições:

  • Pagar caro por um negócio bom irá nos proporcionar um retorno pobre
  • O desempenho de nosso investimento no longo prazo tende a ser igual ao desempenho do negócio
  • Pequenos custos reduzem enormemente o resultado final
  • Comece a investir o quanto antes para aproveitar o poder dos juros compostos.

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