Por que ter dinheiro pode ser um problema: o caso da Iridium

8 dez 20134 Comentários

Na hora de abrir uma empresa muitas pessoas pensam que todos seus problemas ficarão resolvidos no momento que um investidor puser um monte de dinheiro encima da mesa.

Já ouvi de um auto proclamado empreendedor que não tinha mais do que sua ideia, que com R$60.000 logo teria a empresa bombando, pois esse era o dinheiro que “achava” que precisava para comprar os equipamentos necessários para iniciar seu projeto.

No meu TCC falei sobre a Iridium, a primeira iniciativa de telefonia móvel a nivel mundial. Acho que serve como exemplo para ilustrar porque esta mentalidade pode nos levar a fracasar de forma estrepitosa.

A historia de Iridium, começa em 1985 quando um engenheiro da Motorola teve a ideia de desenvolver um sistema de telefonia móvel que permitisse realizar e receber ligações desde qualquer ponto do planeta.

Em 1987, depois de uma oposição inicial por parte da diretoria da Motorola, os engenheiros começaram a desenvolver o projeto. O plano era utilizar vários satélites de baixa altitude (abaixo dos satélites geoestacionários) distribuídos estrategicamente ao redor da Terra.

Como colocar um satélite em órbita não é simples, o projeto precisou de grandes quantidades de investimento e o envolvimento de diversos parceiros, incluídos governos.

Foi reunida uma equipe experiente que incluía um CEO que tinha sido responsável pelo grande sucesso da Motorola nos anos anteriores.

Em junho de 1997 Iridium saiu a bolsa com um preço por ação de $20,00, que em maio de 1998 chegou a um máximo de $72,19.

No dia primeiro de agosto de 1998, 11 anos depois das primeiras especificações feitas pelos engenheiros, o serviço foi lançado ao mercado e o vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, fez a primeira ligação utilizando um terminal Iridium.

Até este momento o gasto total na empresa tinha sido de $5,2 bilhões (sim, bilhões com b).

Em agosto de 1999, menos de um ano depois do lançamento, Iridium tinha ainda somente 20.000 clientes, o preço das ações tinha caído até os $3,06 e a empresa teve que se declarar em quebra.

Aparentemente Iridium tinha tudo que precisava para ter sucesso: uma equipe dos melhores profissionais e com experiência, grandes parceiros, uma quantidade enorme de capital investido, uma tecnologia de ponta e um plano de negócios bem definido e com estimativas de lucratividade bem desejáveis. O que aconteceu?

Os problemas, na verdade, foram múltiplos. Mas todos eles tiveram uma causa comum: um planejamento inicial pouco realista, que não teve em conta as necessidades reais dos clientes e que não foi atualizado para refletir as mudanças tecnológicas e de mercado que aconteceram durante os 11 anos que o serviço demorou para estar pronto.

Como exemplo, o terminal usado para realizar as ligações tinha literalmente o tamanho de um tijolo e custava $3.000,00.

Além disto, o preço das ligações estava entre $3,00 e $8,00 por minuto. Pior ainda, para realizar as ligações o usuário não podia ligar desde o interior de um prédio ou um carro: precisava sair a um lugar aberto e apontar a antena ao satélite.

Tendo em conta que em 1998, data do lançamento do serviço, já existiam celulares com uma tecnologia muito mais barata e leve, podemos entender o absurdo da situação: seguindo o que tinha sido definido no Plano de Negócios, os engenheiros da Iridium se empenharam duramente em construir uma tecnologia que em 1987 poderia ter sido considerada futurista mas que, com a rapidez das mudanças da época, 11 anos depois estava totalmente atrasada em preço e facilidade de uso se comparada com os novos sistemas de telefonia disponíveis.

E não adianta pensar que a Iridium poderia ter refeito seu Plano de Negócios toda vez que uma mudança tecnológica acontecesse. A inércia de um Plano de Negócios mastodôntico e com tantas interdependências é grande demais, e a tendência natural dos gestores formados em grandes corporações é a de fugir para a adiante.

A realidade das Startups é que cada dia tudo pode mudar. Um dia os fundadores têm uma ideia de negócio com um potencial de mercado promissor, ao dia seguinte descobrem que suas suposições estavam erradas, depois descobrem um nicho de mercado que lhes permite obter financiamento, mas na outra semana tudo da errado e estão fora do mercado, só para receber um mês mais tarde uma oferta de compra de Google por R$100 milhões.

A questão é, como lidar com este caos e incerteza de uma forma racional e estruturada, que reduza ao mínimo os riscos envolvidos na criação de um negócio? Usando ferramentas como o Customer Development Model, Lean Startup e o Business Model Canvas.

Lições aprendidas:

1. Dinheiro não é o motivo pelo qual a sua startup não vai ter sucesso.

2. Muito dinheiro pode significar o fim da sua empresa pois a tendência natural é a de gastar todo o que está disponível.

3. O plano de negócios não é a solução, pois não pode ser atualizado com a rapidez necessária.

4. Ferramentas como o Customer Development Model, Lean Startup e o Business Model Canvas são essenciais para o sucesso de uma Startup.

Nos investimentos

Ao avaliar uma empresa, considere sempre como a equipe gestor usa o dinheiro disponível. Um bom gestor se diferencia por ser um bom alocador de capital.

Por outro lado, um mal gestor, assim que tem dinheiro nas mãos, tende a gastá-lo sem reparar na taxa de retorno que consegue.

Evite empresas dirigidas pelo segundo tipo de gestor. Seus investimentos terão mais probabilidades de ser bem sucedidos.

Comentários

4 Comentários

  1. Josemar Dias

    Pablo, parabens pelo blog! Muito interessante especiamente para pessoas como eu que tem uma vontade grande de viver sem chefe.

    Responder
    • ViverSemChefe

      Josemar, obrigado amigo. Se você tem essa vontade não desista! Va en frente. O caminho não é fácil, mas vale a pena o esforço. Um grande abraço!

      Responder
  2. Paulo

    Gostei muito do conteúdo do blog. Parabéns! Conhecimento nos ajuda a realizar nossos sonhos!

    Responder
    • ViverSemChefe

      Obrigado Paulo! Qualquer sugestão é bemvinda. Abraços!

      Responder

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