Pensar rápido e pensar devagar

30 nov 20180 Comentários

Responda rápido:
Qual é a cor da sua geladeira?
O que bebem as vacas?

Se sua resposta à segunda pergunta foi “leite” você acaba de descobrir o que é a disponibilidade heurística. Seu sistema 1 de pensamento, o sistema rápido, acabou de dar para você uma resposta rápida e errada, com base na informação disponível mais acessível que achou. E agora que você parou para pensar, seu sistema 2 de pensamento, o sistema lento, acabou de lhe dizer que o que as vacas bebem, na verdade, é água.

Nesta pegadinha boba estão contidos três conceitos muito importantes sobre o funcionamento de nosso cérebro e a forma em que tomamos decisões no dia a dia.

Dois sistemas

Você já se encontrou alguma vez dirigindo e, sem ter certeza do motivo, decidiu mudar rapidamente de faixa um instante antes de outro veículo quase bater em você? Se não tivesse mudado de faixa teria acontecido um acidente. Mas como foi que você reagiu tão rápido? Depois do susto seu cérebro começou a buscar uma explicação, e talvez concluiu que você é um ótimo motorista. Sinto muito lhe decepcionar, mas essa reação que você teve é muito comum. É o resultado de muitas horas de experiência no volante. Seu cérebro interpretou rapidamente vários sinais: o som do outro carro se aproximando rápido demais, o som dos pneus, um movimento fugaz pelo retrovisor que não condiz com um carro que vai em linha reta, talvez o movimento de um terceiro carro que também evitou o acidente, informação guardada no seu subconsciente de que não tinha ninguém na faixa para a qual você mudou, conhecimento da capacidade de resposta do motor do seu carro, a sensibilidade do volante… e tudo isso e mais foi processado em uma fração de segundo para tomar uma decisão intuitiva muito rápida. O responsável dessa realização impressionante é o que os psicólogos chamam de sistema 1 de pensamento.

O sistema 1 é um cara muito peculiar, sempre prestes a nos ajudar. Ele processa informação de forma extremamente rápida e automática, e toma decisões de forma intuitiva, sem parar para analisar se aquela decisão é correta. Tudo isso sem nenhuma sensação de controle voluntário. O sistema 1 nos ajudou, durante nossa época de moradores das cavernas, não tanto tempo atrás, a entender que devíamos fugir de animais perigosos que podiam nos comer. Ele nos permite realizar sem esforço tarefas simples do dia a dia, como por exemplo:

  • Coordenar pés e mãos para dirigir um carro.
  • Dizer aos meus dedos quais movimentos devem fazer sobre o teclado do computador para escrever este texto.
  • Interpretar alegria na expressão facial de alguém.
  • Entender frases simples em nossa língua materna.
  • Associar um determinado sotaque com uma personalidade alegre.
  • Resolver a operação “2+2=…”?

Agora responda à seguinte pergunta:
Qual é o resultado de 32×19?

A não ser que você seja um gênio matemático você precisa, no mínimo, parar e pensar para realizar o cálculo em sua mente, ou talvez com papel e lápis. O que acontece aqui é que o sistema 1 achou uma dificuldade, um problema que não consegue resolver, e pede para o sistema 2 entrar em ação. O sistema 2 é muito preguiçoso. Ele é quem tem a última palavra sempre, mas a maior parte do tempo ele aceita as decisões que o sistema 1 toma.

Voltando ao exemplo de dirigir. Sabe aquele momento no trânsito em que você se controla para não xingar o cara que quase bateu no seu carro? Foi seu sistema 2 tomando o controle. Porque o sistema 2 é você. Você (o sistema 2) decidiu se segurar, apesar da vontade enorme (o sistema 1) de xingar o outro motorista. E para isso precisou de um esforço muito grande porque, como dissemos antes, o sistema 2 é preguiçoso.

Daniel Kahneman explica assim a relação entre os dois sistemas:

“O sistema 1 é aquele que sem esforço gera impressões e sentimentos que são as fontes principais das crenças explícitas e as eleições deliberadas do sistema 2. As operações automáticas do sistema 1 geram padrões de ideias surpreendentemente complexos, mas somente o lento sistema 2 pode construir pensamentos numa série ordenada de passos.”

Resumindo:
O sistema 1 gera crenças e sugere decisões com base nestas crenças, e o sistema 2 recolhe estas decisões, as aceita e executa, a não ser que o sistema 1 não tenha conseguido resolver. Somente neste caso o sistema 2 toma uma decisão mais lenta e pensada.

O sistema 1 é quem está no comando a maior parte do tempo, resolvendo problemas rapidamente, tomando decisões sem esforço. E isso funciona muito bem para nós… quase sempre. Porque o sistema 1 é responsável por todos os vieses psicológicos que nos levam a tirar conclusões precipitadas e a tomar decisões erradas. O problema é que ele não pode ser desativado. Ele é sempre a primeira linha de frente.

Mas se é impossível desligar o sistema 1, como podemos evitar todos os nossos erros de julgamento? Como é que eu consigo não xingar o outro motorista? Usando modelos mentais.

Modelos mentais.

Um modelo mental é uma representação, em nossa mente, do mundo que nos rodeia. Por exemplo, as 4 estações do ano são um modelo mental, uma representação de como a Terra muda de clima ao longo do ano, segundo a distância à que estiver do Sol. Se vemos que as folhas das árvores estão caindo sabemos que estamos no outono, logo o clima ficará mais frio e precisaremos nos agasalhar. Se vemos que as flores começam a aparecer por todas as partes sabemos que estamos na primavera, e logo o calor chegará.

Outro modelo mental mais complexo é o efeito Franklin. Benjamin Franklin, numa ocasião ficou sabendo de um homem que não gostava dele e tinha escolhido a ele, Franklin, como inimigo. Então Franklin decidiu resolver o assunto. Para isso, foi até o homem e lhe pediu emprestado um livro de sua biblioteca. De todos era sabido que a biblioteca de Franklin era uma das melhores, e por tanto, essa petição de Franklin foi recebida pelo homem como um grande elogio. Se Franklin, cuja biblioteca era uma das melhores, estava pedindo a ele um livro emprestado era porque o apreciava e valorizava. A partir daquele dia eles foram grandes amigos até o fim de suas vidas. Consegue enxergar o modelo? Ele pode ser aplicado a muitas situações das nossas vidas. A reação de Franklin não é natural, é uma escolha deliberada, depois de refletir sobre o assunto, e requer um grande esforço. Pedir um favor para alguém que nos odeia não é nada fácil.

Pensando deste jeito, qual é a única forma de fazer com que nosso sistema 2 tome o controle e nos impeça de xingar o motorista do outro carro? Refletindo antes das coisas acontecerem, modelando a situação em nossa mente. Se refletimos antecipadamente sobre o fato de que, quando uma pessoa nos corta no trânsito, nossa vontade será a de xingar ele (este é o modelo mental), estaremos preparados para identificar o modelo quando ele se apresentar, e poderemos tomar o controle, com esforço, e nos conter.

Nos investimentos, nos negócios e na vida.

Os vieses mentais são inúmeros, e na hora de tomar decisões de investimento ou desinvestimento podem nos fazer errar de forma catastrófica. Vender uma ação quando está caindo sem entender o motivo da queda, ou comprar uma ação quando está subindo, sem entender o motivo da subida, são receitas seguras para o desastre.

Por isso um de nossos objetivos de melhoria pessoal deveria ser (seguindo a sugestão de Charlie Munger), criarmos em nossa mente uma treliça de modelos mentais. Uma série de modelos, entrelaçados entre si como uma treliça, que nos ajude a enxergar o mundo de tal forma que possamos tomar cada dia melhores decisões, sermos melhores pessoas e, no final das contas, sermos e fazermos aqueles ao nosso redor mais felizes.

Conclusão

  • Continuamente em nosso dia a dia cometemos erros de julgamento que nos levam a tomar decisões erradas.
  • A origem destes erros e más decisões se encontra na forma em que nossa mente é rápida e eficiente processando a informação que recebe.
  • Embora não possamos desligar nossas percepções iniciais, podemos nos preparar para prestar atenção em situações nas que sabemos de antemão que temos uma alta probabilidade de cometer um erro de julgamento.
  • A forma de fazermos isto é estudarmos e aprendermos o maior número possível de modelos mentais, representações do mundo que estão em nossa mente.

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