Os impérios se forjam na fronteira

19 nov 20180 Comentários

Em seu livro Imperiofobia y leyenda negra, Maria Elvira Roca fala, sobre a diferença entre a conquista da América por parte do império espanhol e as tentativas de outros países de criar impérios:

“No final do século XV, Castilla mantém em todo o seu vigor os mecanismos políticos, econômicos e organizacionais de ocupação dos territórios. Os outros reinos hispânicos já terminaram sua Reconquista, mas Castilla não. Além disso, ele não apenas os preservou, mas os aperfeiçoou durante a guerra de Granada. Qualquer um pode ter uma idéia da complexidade extraordinária do processo de assimilação de territórios, olhando para os livros de distribuição. Uma expansão territorial não é nada se você não sabe o que fazer com ela. É por isso que há tantos impérios que fracassam e que não conseguem superar a fase da aventura geracional ou da mera ocupação. Os espanhóis poderiam muito bem ter chegado à América, e uma vez lá não saber o que fazer, como aconteceu com os inglêses, e não porque eles fossem desajeitados ou faltasse coragem, mas porque a sua trajetória histórica era diferente e não os prepareou para enfrentar um desafio semelhante. A experiência da fronteira é crucial no desenvolvimento de impérios.[…] Os espanhóis chegaram à América em 1492 e em cinquenta anos conquistaram mais de 15 milhões de quilômetros quadrados. Os fugitivos do Mayflower chegaram à costa em 1620, e cento e cinquenta anos depois, o território que eles puderam controlar era aproximadamente como a Espanha. […] Quando os ingleses chegaram à América, simplesmente não sabiam o que fazer. Eles não tinham a experiência do Outro. Eles não sabiam como tratar ou concordar ou guerrear com esse Outro, tão diferente”.

Espanha foi invadida em 711 pelos muçulmanos, que conquistaram quase toda a península ibérica. Desde então até 1492, os diversos reinos espanhóis precisaram reconquistar seus territorios, num processo lento (quase 800 anos) de assimilação cultural e política, com leis iguais para todos, criando uma união que tem durado até hoje, mais de 500 anos depois. Este conhecimento acumulado explica, segundo Roca, a rápida conquista de América pelos espanhóis, em comparação com as tentativas dos ingleses, que viviam numa ilha e nunca tiveram a experiência espanhola da fronteira.

A pesar da crença popular contida na lenda negra que os países protestantes espalharam sobre a Espanha, nos territorios espanhóis da América a população nativa foi incorporada à Espanha como súbditos da corona, com os mesmos direitos que os nascidos na Europa. A rainha Isabel I de Castilla foi a primeira governante no mundo, em 1500, a abolir a escravidão, e decretou a devolução de suas terras aos indios. Foram criadas inúmeras universidades e estradas que uniam todos os territorios, compartilhando técnicas de cultivo e criando uma sensação geral de prosperidade.

Voltando aos tempos de hoje, esta semana estão saindo diversos depoimentos no Canada de donos do Tesla Model 3, mostrando como, nas baixas temperaturas do inverno, as maçanetas das portas estão ficando congeladas por um problema de falta de estanqueidade. Este tipo de coisas não acontecem com um Volvo ou um BMW na Suécia ou na Alemanha, com temperaturas inferiores a -15 ou -20 graus. Simplesmente porque Volvo ou BMW têm uma experiência acumulada de décadas construindo carros, que Tesla não tem.

A questão é que os emprendedores de sucesso, rara vez o são na primeira tentativa. O processo de tentativa e erro é essencial para o aprendizado e para construir as bases de um processo de crescimento que, posteriormente, trará esse sucesso que parece que chega da noite pro dia. Acontece também com as sociedades, como bem explicou Friedrich Hayek em seu artigo de 1945, O uso do conhecimento na sociedade: o conhecimento necessário para fazer o capital crescer está disperso e somente pode ser acumulado com tempo. É o processo de aprendizado.

Mas não aprendemos somente com a experiência, pelo simples paso do tempo ou só nos expondo a situações diferentes. É necessária a reflexão sobre o que nos acontece. Não há aprendizado sem reflexão. Por isso, para atingirmos qualquer objetivo na vida, é tão importante começar assim que possível, sem esperar às condições ideais se apresentarem, nos assomarmos às nossas  fronteiras, aquilo que não conhecemos ou nos da medo, e refletirmos sobre tudo isso.

A experiência da fronteira nos investimentos

No meu checklist de investimento, um dos fatores mais importantes a serem analisados sobre uma empresa é a equipe gestora. A forma em que os gestores fazem a alocação de capital faz total diferença na marcha de um negócio. De fato a função principal de um bom CEO é ser um bom alocador de capital. O que tento procurar ao analisar os gestores da empresa são sinais de que entendem o mercado em que estão atuando, e que quando têm dinheiro disponível o investem para obter um rendimento alto. Isto são habilidades que se desenvolvem com o tempo. Por isso uma empresa dirigida por gente que fez carreira na própria empresa desde embaixo, que já passou por ciclos baixos de mercado, conseguiu sobreviver e aprendeu suas lições, tem tudo para ter sucesso no futuro.

Conclusão

O que para os impérios em formação é a fronteira, aquele contato com o Outro, aquela necessidade de aprender a assimilar o desconhecido e fazer com que o todo seja melhor do que as partes separadas, é para o individuo o periodo de aprendizado em que arrisca a fazer coisas que desconhece, tentando resolver problemas que não tem experimentado antes. É isto que forja o sucesso no longo prazo: empurrar as fronteiras de nossas habilidades e de nossos conhecimentos. Devagar e sem pausa, semeando hoje para coletar amanhã, se constroem impérios e se preenche uma vida de sucesso.

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