Está barata ou cara a bolsa brasileira?

19 jun 20190 Comentários

Como saber se o mercado de ações está caro ou barato? Recentemente tenho visto algumas noticias de analistas dizendo que a bolsa está barata. Tem até gente dizendo que em 100 mil pontos a bolsa está mais barata do que quando estava em 50 mil. Mas será?

E supondo que esteja barata, como medir isso? Algo que muitos analistas fazem é calcular o preço das empresas em relação ao lucro líquido que elas obtêm. O problema disso é que há inúmeros motivos pelos quais o lucro líquido das empresas não é uma boa medida.

O principal deles é que o lucro líquido é uma medida tão manipulável contabilmente que não representa em absoluto o desempenho de uma empresa. Como saber então se a bolsa está cara ou barata?

Há um indicador que transmite muita mais clareza sobre o nível relativo de preços da bolsa: o chamado Indicador Buffett. Na verdade o nome dele é indicador de capitalização bursátil em relação ao PIB, e é um indicador utilizado para determinar se um mercado está caro ou barato em comparação com a média histórica. É calculado simplesmente como a capitalização do mercado de ações dividida pelo produto interno bruto, ou PIB.

O índice de capitalização bursátil em relação ao PIB é conhecido como o Indicador Buffett porque foi Warren Buffett quem popularizou seu uso. Segundo Buffett, trata-se do melhor indicador para avaliar se a bolsa como um todo está cara ou barata. Mas vamos por partes.

O que é a capitalização do mercado de ações? É, simplesmente, a soma dos preços em bolsa de todas as empresas de uma economia. Nos Estados Unidos, onde o Índice Buffett é mais conhecido, usa-se o índice Wilshire 5000 Total Market Index, que representa mais de 6.700 empresas. No Brasil, que eu saiba, não há um índice tão abrangente, então o que eu utilizo para meus cálculos é o iBovespa.

O iBovespa é uma média ponderada de um conjunto de ações representativas da economia brasileira. Como a importância do Indicador Buffett não reside em seu valor pontual, mas na sua posição relativa dentro da sua evolução histórica, podemos usar o iBovespa como representação razoável da capitalização da bolsa brasileira

O PIB, ou produto interno bruto do Brasil, é calculado como a soma do valor monetário de todos os bens e serviços produzidos no Brasil num determinado periodo. Para o cálculo do Indicador Buffett o que se utiliza é o PIB trimestral.

(Um paréntesis aclaratório: o PIB, calculado do jeito que acabei de mencionar, embora seja utilizado continuamente por absolutamente todos os agentes económicos, não é uma medida que reflita a verdadeira situação da economia. O motivo é que ele inclui únicamente bens e serviços finais. Ele não inclui a maior parte da economia que está nas inúmeras etapas produtivas anteriores à etapa de consumo. E não: o preço do carro deste ano não inclui o preço, por exemplo, do motor, porque o motor foi produzido o ano passado… mas isto é assunto para um artigo mais detalhado. Fecho paréntesis).

O Indicador Buffett então vai ser um percentual do PIB do país. O que segue é o gráfico do indicador Buffett calculado por mim. Os dados começam em 1996 para o histórico não ser distorcido pela etapa de hiperinflação que o Brasil sofreu antes do Plano Real:

A linha azul é o iBovespa, a linha vermelha é o Indicador Buffett e a linha amarela é a média histórica do indicador, que está em 48,8%

Observando a evolução do indicador vemos que, até a loucura que foi a bolha de 2008, os dois máximos da bolsa (pontos pretos) aconteceram quando o Indicador alcançou 55%, e os três mínimos (pontos verdes) aconteceram em 27%.

O máximo de 2008 aconteceu em 95%, com um mínimo posterior em 46%. O máximo de 2010 aconteceu em 76% e foi caindo até o último mínimo de 2016 em 26%. Hoje o Indicador está em 56%.

Olhando para estes números uma coisa me parece obvia: ainda aceitando a argumentação de que há uma tendência ascendente da média histórica (entre outras coisas porque os brasileiros estão investindo cada vez na bolsa), a bolsa brasileira hoje NÃO está barata. Pelo menos em termos históricos.

Certamente não está mais barata do que estava em 2013, 2014 e 2015 com 50 mil pontos.

Outra coisa é que as medidas liberalizadoras do governo possam impulsar subidas futuras e inclusive alcançarmos uma nova bolha. Mas isso é muito diferente de dizer que a bolsa hoje está barata.

Usando um exemplo: se você está dirigindo na estrada a 100 km/h, você tem a possibilidade de ir mais rápido, a 110 km/h, e inclusive arriscar e subir a 140 ou 150 km/h. Mas isso não significa que a 100 km/h você esteja indo devagar.

O que fazer na situação atual?

No curto e médio prazo uma palavra vem à minha cabeça: prudência. Ninguém sabe o que vai acontecer no futuro. Aparentemente a bolsa brasileira ainda tem capacidade para subir mais um pouco. Mas é bem possível que nos próximos 2 anos a bolsa recue, especialmente se temos em conta a influência das bolsas americanas e europeias que, essas sim (especialmente a americana) estão muito caras

Porém, a longo prazo a bolsa vai continuar subindo: o mundo está cada vez mais interconectado; a riqueza, o bem estar e a qualidade de vida continuam crescendo a nível mundial; o mundo é, em termos gerais, cada vez mais livre e as pessoas vivem cada vez melhor.

Pensando dessa forma, a bolsa é e continuará sendo a longo prazo o melhor investimento em termos de retorno e segurança. Então não duvide: compre participações em negócios de qualidade, bem administrados e a preço razoável, aguarde o tempo necessário e verá sua riqueza aumentar enormemente.

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