Desta vez é diferente… só que não

6 maio 20190 Comentários

Se há quatro palavras perigosas nos investimentos essas são, sem dúvida, desta vez é diferente. Elas geralmente são pronunciadas pouco antes dos máximos e mínimos do mercado financeiro serem alcançados, geralmente por pessoas que não têm contexto histórico para entender o que está acontecendo, ou simplesmente não têm o conhecimento econômico necessário para conhecer a origem dos ciclos econômicos.

Já expliquei num artigo anterior que a ganância e o medo são as duas emoções mais perigosas nos investimentos (e na vida, por sinal), pois elas nos levam a tomar decisões erradas, geralmente no pior momento. Elas, a ganância e o medo, estão também por trás da expressão desta vez é diferente. Quem as pronuncia está tentando justificar, sem dados reais, que o auge ou a depressão presentes continuarão para sempre.

O contexto histórico nos mostra que, em palavras de Howard Marks, “as árvores não crescem até o céu, e poucas coisas vão até zero”. Apesar disto, sempre há uma tentação a extrapolar a tendência atual, seja ela positiva ou negativa. Quando a tendência é positiva a ganância se impõe, e nos faz achar motivos que justifiquem nossa esperança. Quando a tendência é negativa, o medo toma conta, e nos faz achar motivos que justifiquem nosso pânico. Esse erro é comum em pessoas inexperientes, seja por falta de idade ou por falta de reflexão (lembre que não há experiência real sem reflexão).

Seth Klarman, em seu fantástico livro Margin of safety (Margem de segurança em português) o explica da seguinte forma (a tradução é minha):

Altos níveis de ganância fazem com que os participantes do mercado introduzam um pensamento de “nova era” para justificar a compra ou a conservação de ações sobre-valorizadas. São dadas razões de por qué dessa vez é diferente de tudo que veio antes. Conforme a verdade é esticada, o comportamento dos investidores é levado ao extremo. As hipóteses conservadoras são reavaliadas e revisadas com o objetivo de justificar preços cada vez maiores, e uma mania pode ocorrer. No curto prazo, resistir a mania não só é difícil psicologicamente mas também financeiramente, já que os participantes fazem muito dinheiro, ao menos no papel. Então, previsivelmente, a mania alcança o pico, é reconhecida pelo que é, inverte seu curso, e vira um pânico de venda. A ganância da lugar ao medo, e as perdas do investidor podem ser enormes.

O que há de comum aos momentos de mania e pânico é a crença de que as chamadas ‘velhas regras’ não servem mais. Neste ponto, acho importante notar que as velhas regras são velhas porque elas têm servido desde antigo. Somente isso já deveria ser suficiente motivo para duvidar de que, repentinamente, elas não sejam mais validas. Os motivos dados para o descarte dessas velhas regras geralmente são relacionados a novas tecnologias, novos modelos de negócios, situações geopolíticas não vistas antes, ou comportamentos diferenciados das novas gerações. E esse ciclo (o de descartar as velhas regras com motivos que não têm base em fatos) também se repete.

As velhas regras, por sinal, são entre outras, que agir com responsabilidade e prudência é uma boa forma de se conduzir na vida, assim como nos negócios; que sem dívida nem as familias nem as empresas quebram; que tudo tem um valor e, por tanto, não devemos pagar qualquer preço; que o valor de um negócio depende de sua capacidade futura de gerar fluxos de caixa positivos; que não existe o dinheiro fácil; que a paciência e o trabalho, apoiados em valores sólidos, nos levarão longe; que devemos ter nossas próprias opiniões, baseadas em fatos, e agir conforme a elas, independentemente do que a maioria pensar; que os ciclos econômicos são causados por excessos de crédito sem base real de poupança; e que os ciclos se repetem, uma e outra vez, com diferentes protagonistas mas idênticos resultados.

Infelizmente, há suficientes motivos históricos para acreditar que, quando o próximo máximo ou o próximo piso no ciclo econômico chegarem, uma nova geração de jovens investidores repetirá os mesmos erros que a geração anterior. Foi por isso que quando Jeremy Grantham foi entrevistado pela revista Barron’s durante a grande recessão de 2008, à pergunta ‘Você acha que aprenderemos algo dessa turbulência?’ ele respondeu: “Aprenderemos uma enorme quantidade no curtíssimo prazo, bastante no meio prazo e absolutamente nada no longo prazo. Esse é o precedente histórico”.

Mas você pode sim fazer diferente: estude, seja prudente, não acredite em promesas de enriquecimento fácil e não vá com a massa. Dessa forma terá mais chances de ter sucesso e dormir bem.

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