As taxas de juros explicadas e como reconhecer uma crise iminente

1 abr 20190 Comentários

As taxas de juros são provavelmente o preço mais importante da economia de um país. Bem entendidas elas podem servir para antecipar crises e recessões.

Mas embora todo mundo fale delas, poucas pessoas entendem de fato como as taxas de juros influenciam e são afetadas pela evolução do mercado. Vamos começar pelo começo.

O que é e o que não é uma taxa de juros

A taxa de juros não é o preço do dinheiro, como quase todo mundo diz de forma simplista. A taxa de juros é o preço do dinheiro descontado no tempo. O que isto significa?

Perante a escolha de ter algo em mãos hoje ou ter esse mesmo algo no futuro, todas as pessoas escolhem o agora. Isso chama-se preferência temporal. É a preferência de ter algo antes.

Por tanto para renunciar a algo hoje em troca de esse mesmo algo só no futuro, as pessoas exigem receber alguma coisa a mais. Esse a mais são os juros. O percentual que esses juros representam sobre o algo é a taxa de juros.

A chave aqui é o tempo. Se o tempo é zero não há juros e por tanto a taxa de juros é zero. Vamos fazer com números.

Se eu empresto 100 reais para um amigo com a condição dele me devolver daqui a 1 mês, eu estou renunciando a consumir esses 100 reais hoje. Por tanto meu amigo vai ter que me devolver daqui a 1 mês algo mais do que 100 reais. Se nós combinarmos 2 reais de juros, ele vai me devolver 102 reais, e a taxa de juros será de 2% ao mês.

Como varia a taxa de juros?

Numa economia livre a taxa de juros depende da oferta e da demanda de dinheiro.

A oferta de dinheiro é o dinheiro poupado: as pessoas poupam (renunciam a consumir) e oferecem esse dinheiro aos empreendedores que pegam ele emprestado.

A demanda de dinheiro é o dinheiro solicitado para investir: os empreendedores que pedem um empréstimo ao banco demandam dinheiro.

Por exemplo, quando você poupa 1.000 reais e coloca eles na poupança ou investe eles num CDB, você está emprestando dinheiro ao banco, e o banco como intermediário vai emprestar ele a um empreendedor que o demandou para fazer crescer seu negócio.

Se há mais oferta de dinheiro do que demanda, a taxa de juros cai. Se há mais demanda de dinheiro do que oferta, a taxa de juros sobe.

A taxa de juros varia com o prazo da dívida. Em circunstancias normais, a taxa de juros é menor para um empréstimo a curto prazo do que para um empréstimo a longo prazo. Um CDB a 1 ano paga juros menores do que um CDB a 5 anos. Há dois motivos para isto ser assim:

1. Se a taxa de juros fosse a mesma para o curto prazo e para o longo prazo, quem oferece o dinheiro vai preferir oferecê-lo a curto prazo, e quem demandar dinheiro vai preferir demandá-lo a longo prazo. Por tanto, a curto prazo sempre haverá mais oferta de dinheiro relativa do que demanda, e a longo prazo sempre haverá mais demanda de dinheiro relativa do que oferta. Por tanto as taxas de juros serão menores a curto prazo do que a longo prazo.

2. Há agentes do mercado (principalmente os bancos) que pegam emprestado dinheiro a curto prazo e o emprestam a longo prazo. O que buscam é pagar as taxas de juros baixas do curto prazo e receber as taxas de juros altas do longo prazo para lucrar com a diferença. Isto tem um risco chamado risco de liquidez: para poder emprestar dinheiro a longo prazo o banco vai precisar continuamente refinanciar sua dívida de curto prazo, porque ela vai vencendo, enquanto ele não está ainda recebendo o dinheiro que emprestou a longo prazo. Se a oferta de dinheiro a curto prazo proveniente dos poupadores diminuir o banco tem um problema. Esse risco que o banco assume faz ele exigir do empreendedor, que se endividou com o banco a longo prazo, uma taxa de juros maior. Esse diferencial a maior chama-se prima de liquidez e contribui para que a taxa juros de longo prazo seja maior.

A curva da taxa de juros.

Por tanto, em circunstancias normais, as taxas de juros a curto prazo (para dívidas que vencem por exemplo em 3 meses) são menores do que as taxas de juros a longo prazo (para dívidas que vencem por exemplo em 10 anos). Isto pode ser representado numa gráfica chamada Curva da taxa de juros (yield curve en inglês). No eixo vertical coloca-se a taxa de juros e no eixo horizontal o prazo da dívida. Cada ponto da gráfica representa um tipo de dívida que se caracteriza por um prazo e uma taxa de juros específica. Se unirmos todos os pontos obtemos uma gráfica como a seguinte:

Anomalias na curva da taxa de juros

A curva da taxa de juros representa o custo da dívida para diferentes prazos dentro de uma economia, por exemplo o Brasil. Como a gráfica mostra, a curva normal é crescente para à direita. Porém há circunstâncias especiais em que a gráfica fica plana (as taxas de juros a curto prazo e a longo prazo são iguais) ou inclusive se inverte, isto é ela fica decrescente para a direita (as taxas de juros a curto prazo são maiores do que a longo prazo). Há dois motivos nada bons para a curva inverter:

1. Os investidores esperam uma recessão próxima.

Durante uma recessão, a curto prazo as pessoas tendem a poupar mais (aumentando a oferta de dinheiro) e os empreendedores tendem a congelar seus investimentos e não pedir dinheiro emprestado (reduzindo a demanda de dinheiro). Isto faz com que, durante uma recessão, as taxas de juros de curto prazo diminuam. Se os investidores esperam uma recessão também esperam que as taxas de juros de curto prazo diminuam, o que trará retornos menores em seus investimentos de curto prazo. Por tanto deixarão de oferecer dinheiro a curto prazo para oferecê-lo a longo prazo. Isso fará com que no presente a taxa de juros de curto prazo aumente (pela diminuição da oferta de dinheiro) e a taxa de juros de longo prazo diminua (pelo aumento da oferta de dinheiro), fazendo com que a curva fique invertida.

Neste primeiro caso é obvio que, por tratar-se de expectativas, estas podem estar erradas, e nesse caso a inversão da curva seria temporária. Mas o segundo motivo é mais preocupante.

2. Dificuldade dos empreendedores para pagar suas dividas de curto prazo.

Quando os empreendedores se endividam para investir em seu negócio o fazem com a expectativa de gerar lucros. Com esses lucros eles esperam pagar suas dívidas nos prazos combinados. Se por circunstâncias do mercado seus fluxos de caixa não chegam quando eles planejaram (não vendem o que esperavam vender) terão dificuldades para cumprir com os prazos das dívidas que estão vencendo. Nesse caso os empreendedores solicitarão um novo empréstimo de curto prazo (demandarão mais dinheiro no curto prazo) para poder devolver a dívida inicial. Esse aumento da demanda de dinheiro no curto prazo faz aumentar a taxa de juros de curto prazo, e por tanto a curva se inverte.

Uma curva invertida, por tanto, significa que há anomalias na economia que devem ser resolvidas. Essas anomalias são recursos financeiros aplicados de forma errada em projetos que não estão dando frutos. É por isto que uma curva da taxa de juros invertida é um sinal claro de crise iminente. Acontece que o período de tempo entre a inversão da curva e a chegada da crise pode ser de até 2 anos. Se o governo e os bancos centrais intervêm aumentando a oferta de dinheiro a curto prazo (aumentando o gasto público e imprimindo dinheiro), a chegada da crise será mais demorada, mas a recessão posterior será também mais profunda e mais duradoura.

O que fazer perante uma curva de taxa de juros invertida?

Como investidores, uma inversão da curva de taxas de juros deveria ser um sinal de prudência. E na minha opinião prudência significa duas coisas:

1. Investir somente em empresas de qualidade, com pouca ou nenhuma dívida, que não possam quebrar, exigindo maiores retornos sobre o capital empregado.

2. Ter dinheiro disponível à vista para aproveitar as oportunidade de investimento, que surgirão quando os agentes comecem a liquidar seus investimentos e a bolsa caia massivamente. Nesses casos a imensa maioria de investidores se apavora e vende, e todas as ações, tanto das empresas ruins quando das boas, tendem a cair sem discriminação. É então quando o rio enche de peixes e o investidor inteligente deve lançar suas redes ao rio e pescar.

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