9 modelos mentais para ser melhor investidor

8 abr 20190 Comentários

Já parou para pensar qual é a maior causa de erros ao investir em ações? Se você pudesse contornar essa causa de erros reduziria enormemente suas chances de perder dinheiro, e por tanto aumentaria suas chances de ficar rico. Tenho duas noticias para você, uma má e uma boa. A má noticia é que a maior causa de erros ao investir em ações é você. O próprio investidor, e mais concretamente seus viesses mentais e falhas de julgamento, é o que causa as maiores perdas ao investir na bolsa. Não são os números, não são as variações do mercado e não é o azar. Tudo isso influencia e tem um peso que não devemos deixar de considerar. Mas são nossas falhas internas, a forma em que tomamos decisões, o que nos faz errar.

Na conversa dessa semana com Weber Dias falamos sobre como nossas emoções atrapalham ao tomarmos decisões de investimento. É isso que faz o Value Investing ser difícil. Mas como disse antes, também há uma boa notícia. E é que há formas de lidar com nossos viesses mentais. A melhor delas é o uso de modelos mentais.

O que é um modelo mental?

Um modelo mental é uma representação de como algo funciona. Simples assim. É uma forma simplificada de olharmos para o mundo, de forma que possamos entendê-lo mais facilmente. Usamos modelos mentais o tempo todo sem percebermos. Eles podem estar nos ajudando, quando nos permitem tomar decisões acertadas mais rapidamente (por exemplo, no meu caso, se durante uma discussão minha esposa me da a razão tenho um modelo mental que me mostra rapidamente que devo pedir desculpas por alguma coisa). Mas também podem estar nos atrapalhando, quando nos impedem de enxergar determinados detalhes e com isso nos fazem errar (por exemplo, quando um vendedor sorri para a gente, um modelo mental pode nos dizer que se trata de um vendedor honesto, abaixamos a guarda e acabamos pagando mais caro por um produto).

Essa semana Shane Parrish publicou uma lista de 9 modelos mentais que abrangem um amplo leque de decisões. Vou explicar eles do ponto de vista de um investidor.

1. O mapa não é o território

Um mapa é uma representação simplificada do terreno. Ele serve para nos orientar e saber que caminho devemos seguir. Se o mapa contivesse todos os detalhes do terreno não seria útil, pois para isso já temos o terreno. Mas você imagina dirigir um carro olhando só para a tela do GPS? Pode até dar, mas as chances de se matar são grandes.

Ao investirmos em ações muitas vezes focamos em uns poucos números ou indicadores para tomarmos uma decisão de investimento. Um exemplo: achamos que um PER baixo é um sinal suficiente de que o negócio está barato. Mas ele pode estar indicando também que o mercado está prevendo uma degradação da vantagem competitiva e esperando uma redução dos benefícios futuros. Isso faria o preço da ação cair, dando a aparência de estar barata, frente aos benefícios passados. Então não foque só em uns poucos indicadores e faça o trabalho de casa completo.

2. Círculo de competência

O círculo de competência é o conjunto de assuntos sobre os quais temos conhecimento. Fora desse círculo está tudo que não sabemos. Acontece que há um outro círculo muito maior do que o círculo de competência que contém aquilo que achamos que sabemos, mas de fato não sabemos. Eu chamo de círculo de estupidez. Pois como disse Mark Twain, “não é o que você não sabe que coloca você em problemas. É o que você sabe com certeza que apenas não é”. E o culpado de agirmos fora de nosso círculo de competência e dentro de nosso círculo de estupidez é nosso ego.

Ao investirmos devemos focar em investimentos que entendamos. Investir numa empresa farmacêutica pode parecer muito excitante, mas se você não entende o ciclo de pesquisa e aprovação de um remedio, a burocracia da ANVISA, os princípios ativos que há por trás dele, como poderá ser comercializado ou o que a empresa vai precisar fazer para o remedio ser aceito e usado pelos estamentos médicos, você estará atirando no escuro.

3. Pensamento baseado em primeiros princípios

Um primeiro principio é uma proposição básica e auto-evidente, isto é, um fato indiscutível. Muitas vezes temos problemas por tomamos decisões com base em nossas suposições. O pensamento baseado em primeiros princípios é o raciocínio que nos permite separar os fatos de nossas suposições sobre esses fatos.

Ao investirmos em ações devemos analisar as contas das empresas. Mas não todas as contas são igual de verídicas. Por exemplo, dentre todas as contas, o fluxo de caixa é um fato, enquanto a conta de resultados é uma opinião da equipe gestora. O fluxo de caixa é dinheiro real que entra e sai da empresa. Até pode ser manipulado, mas chama mais a atenção. Porém a conta de resultados, a primeira coisa que a maior parte dos investidores olha, é muito facilmente manipulável e por tanto devemos ter cuidado ao tirar conclusões rápidas com base nela.

4. Experimento mental

Um experimento mental é um experimento que realizamos em nossa mente, com a única ajuda de nosso pensamento e nosso raciocínio lógico. É muito utilizado em situações em que não podemos realizar o experimento na prática. Por exemplo, Einstein deduziu sua teoria da relatividade usando unicamente experimentos mentais, pois na sua época não havia a tecnologia necessária para realizar os experimentos na realidade. Os experimentos mentais nos permitem prever erros assim como avaliar possíveis consequências de nossas decisões.

Ao investirmos numa empresa devemos necessariamente fazer alguma suposição sobre o futuro daquela empresa. Para isso devemos imaginar, por exemplo, se poderia aparecer alguma nova tecnologia que reduzisse a vantagem competitiva do negócio e se a empresa teria como evitar que isso acontecesse. Podemos e devemos imaginar situações em que nossas suposições sobre o negócio estão erradas e o que pode acontecer em tais casos. Desta forma teremos uma base muito mais sólida para tomarmos uma decisão acertada em circunstancias adversas.

5. Pensamento de segunda ordem

O pensamento de segunda ordem é a consideração das consequências por trás das primeiras consequências de nossas ações. Trata-se de pensar um passo além dos resultados imediatamente visíveis. Por exemplo, um aumento do salário mínimo traz como primeira consequência um aumento do salário de quem ganha menos, mas como segunda consequência quem produz menos do que o novo salário mínimo (jovens recém formados ou pessoas de muito baixa qualificação) não será contratado por ser muito caro. Por tanto o salário mínimo prejudica a quem mais pretende ajudar. E isso não é visto só com o pensamento de primeira ordem.

Ao investirmos devemos considerar a segunda e inclusive a terceira ordem de consequências por trás das decisões dos gestores da empresa. Decisões de alocação de recursos são as mais importantes que um CEO deve tomar, e as que mais afetam o valor que o acionista vai receber. Se, por exemplo, o gestor decide repartir um dividendo, a consequência primeira será mais dinheiro imediato no bolso do acionista. Mas se esse dividendo for pago contraindo dívida, a consequência de segunda ordem pode ser uma drenagem de recursos financeiros da empresa que acabem de fato reduzindo seu valor, e por tanto gerando perdas para o acionista.

6. Pensamento probabilístico

Pensar de forma probabilística é básicamente tentar estimar a chance de que aconteça determinado resultado. Idealmente devemos tentar estimar não só a probabilidade de algo acontecer mas também a gravidade das consequências desse algo.

Ao investirmos é muito útil considerarmos diferentes cenários de resultados para nosso investimento em função da evolução da empresa. Monish Pabrai indica sempre investir em situações em que o evento mais provável nos fará ganhar muito e o evento mais improvável nos fará perder muito pouco. Sempre devemos evitar situações em que qualquer evento, ainda que pouco provável, nos faça perder tudo.

7. Inversão

A inversão se baseia em inverter um problema, olhando para ele de trás para a frente. Em vez de começarmos pelo evento causador começamos pela consequência e caminhamos em direção às possíveis causas. Os engenheiros chamamos de engenharia reversa. Para entendermos um processo corretamente, a inversão é às vezes mais útil do que começar do ponto natural de partida.

Ao investirmos podemos aplicar a inversão para estimar quais eventos poderiam nos levar a determinada consequência. Podemos nos perguntar o que precisaria acontecer para que a cotização da ação dobrasse. Alguns investidores chamam esses eventos de catalisadores. O problema é que muitos investidores pensam só para a frente, começando pelo catalizador, o que os leva muitas vezes a considerar certa uma consequência improvável.

8. A navalha de Occam

A navalha de Occam é uma forma de resolver problemas, que parte da ideia de que uma explicação mais simples tem mais probabilidade de ser certa do que uma explicação muito complexa. É mais provável acertarmos em nossas decisões nos baseando em cenários simples do que em suposições complexas.

Ao investirmos devemos escrever uma tese de investimento. Devemos poder explicar de forma breve por que estamos investindo naquela empresa. Se nossa explicação envolver cenários muito complexos é muito provável que eles não vão se cumprir, ou pior, é provável que estejamos enganando a nós mesmos.

9. A navalha de Hanlon

A navalha de Hanlon diz que não devemos atribuir à maldade aquilo que é mais facilmente explicado pela estupidez. Quantas vezes ficamos irritados com os outros porque consideramos que seus atos são fruto da maldade? Muitas vezes, o que move as pessoas é simples estupidez e ignorância. As pessoas erram. Então devemos deixar a um lado a paranoia e focar em explicações mais razoáveis, que contenham uma quantidade menor de intenção por parte dos atores envolvidos.

Ao investirmos, como disse Warren Buffett, devemos tentar “escolher negócios que possam ser administrados por um idiota, porque antes ou depois um idiota vai administra-los” (embora inclusive essa regra tenha sua exceção).

Existem muitos outros modelos mentais além desses 9. Estudar e interiorizar o maior número de modelos mentais não só nos ajudará como investidores, mas na vida como um todo, e nos ajudará a tomar melhores decisões, termos melhores relacionamentos e, em definitiva, sermos mais felizes.

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